A vida vivível
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| Angel Prelude, Mikalojus Konstantinas Ciurlionis, 1909 |
As coisas não acontecem só aos outros. Também te acontecem a ti.
Como estar no exterior de umas urgências, sentada num banco de pedra a arder em febre e com um martelo pneumático a rebentar-te os tímpanos. Quem dera que este último fosse só uma força de expressão. Estava lá mesmo um martelo pneumático a rebentar-me os tímpanos. E uma mulher a curvar-se de dor ao meu lado cuja máquina mais tarde emitiu berros entorpecedores quando ela entrou em paragem cardíaca.
A vida está por um fio e as vezes vemos o outro lado, apenas e simplesmente porque fazemos parte daquele miserável 1%, aqueles azarados que se fosse o contrário poderiam muito bem ser o 1% mais rico do mundo… uma vacina foi quanto bastou para me deixar a delirar de febre, aquela que põe os termómetros a mostrar luzes vermelhas.
Perigo, perigo!!
Zona de perigo, imagem de macacos voadores, igrejas alagadas, pés descalços, um dia de sol quente…
O cérebro guarda informação incrivelmente esquisita e fica igualmente estranho em estado febril.
Vestes azuis, óculos num contentor, batas brancas, máscaras, luvas azuis… vozes interessadamente desinteressadas. Vozes cansadas. Pessoas a tentarem ser compreensivas, mas fartos, francamente fartos! Médicos cansados para além da conta. Enfermeiras a correr, para além das capacidades. Tudo alí estava para além, muito além. Helicópteros, um depois do outro, ambulâncias sem fim.
Perigo!
Perigo também é estar sozinho numa cama dura de hospital, sem ter ninguém. Se a máquina barulhenta decidir que é o teu coração, o espaço frio, pálido e ofuscante é a última coisa que vais ver? Enquanto na rua, no meio da barulheira os teus entes queridos desesperam.
É assim que vai ser?!
Que mundo estranho e desumano é este onde vivemos, que para salvar a vida é preciso destruir tudo aquilo que faz dela vivível.

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