O ser que há em mim
Podes chorar até que as forças caiam, podes sofrer até que a angústia te consuma no vazio. Depois disso?
Depois?
Depois irás ver a luz, irás sentir-te calma e talvez um pouco feliz. A tempestade irá passar!
Estas eram as palavras que me repetia no dia em que me deixou, nesse e em todos os dias que se seguiram.
Esperei que essa luz volta-se, ansiei por dias mais brandos e amenos.
A angústia passou, a tristeza que existia dentro do meu coração foi amenizando até encontrar um porto sereno onde se abrigar. A vida, a vida como a conhecia continuava.
Só agora a casa para onde nos tínhamos mudado ganhava forma, só agora o sufoco pelo qual passamos durante tantos anos se balançava com advir mais aberto.
Foi nestes dias, depois de tantos de sombra que ela partiu.
Deixou-me depois, depois de aguentar comigo todas as tempestades, de fazermos de pouco muito. Rimos do que tínhamos e do que faltava. Cada dia foi uma vitoria, cada madrugada um desafio que ambas estávamos dispostas a travar.
Dissipou-se no ar, num instante a sua essência, tudo aquilo que fazia dela, ela, única e irrepetível esvaneceu-se. O invólucro vazio e frio que acarinhei por uma última vez já não a continha. A vivacidade, o universo que existia nos seus grandes olhos amarelos havia desaparecido.
A verdade é que nunca haveria de viver na nova casa, como era esperado. A frustração contudo não foi essa, o desespero residiu na minha lentidão. Esperou toda a sua vida que eu aprende-se a lidar com o mundo. Presenciou como ninguém as minhas falhas de caracter e todas as outras também. A falha maior, aquela que carrego sobre os ombros, foi de em 13 anos não ter conseguido me transformar ma pessoa que ela viu, ou esperou que me torna-se. É esse o fantasma que persegue até hoje.
O que fica depois da angústia, do vazio, das dores que chamamos da alma?
Uma dor física que é real, nunca tinha ouvido falar dessa dor, como tal, nunca desejei a sua ausência. Este ser que mora dentro de mim e que não reconheço, respira ofegantemente e desesperadamente na ânsia de mudar o que está escrito em pedra.
Quem és tu? Que nome tem aquele que não sabe como seguir, mas sabe sempre como se infiltrar sob a forma de medo? Dor aguda, difusa, confusa como um quadro de Pollock. É peganhenta, consome por dentro.
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